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quarta-feira, abril 18, 2007


Onde estava no 25 de Abril de 74 ?


Era de manhã, aquelas manhãs de Abril em que o sol começa a ficar mais brilhante, a hora da escola tinha chegado. O leite com nesquick e a torradinha já na mesa, a mamã
ajudava a fazer o tal lacinho na bata impecavelmente passada a ferro. Fortes pancadas na porta fizeram o seu pequeno coração bater mais forte. Uma voz gritava:
- Vizinha, vizinha não deixe a sua menina ir à escola! Está a haver uma revolução, os militares estão na rua.
A mamã, assustada como sempre foi, agarrou logo a menina e foram as duas ouvir a rádio. Que coisa mais estranha! As marchas militares davam um timbre tão estranho aquela manhã. Ente rezas à nossa Senhora de Fátima e o matraquear das marchas, a mamã ia falando baixinho com as vizinhas.
Ai o que vai acontecer ?!
Para a menina o dia foi tornando-se glorioso, brincadeira na rua e uma crescente felicidade estampada no rosto dos mais velhos à medida que as notícias iam chegando.
È a liberdade, já podemos falar, explicava a vizinha à mamã. Então explicou:
-Foi por isso que o meu pai esteve preso em Peniche. Para aquela mulher a vergonha do seu tempo de menina transformou-se em orgulho, seu pai tinha também sido um herói, com a sua prisão contribuiu para a liberdade de todos nós. Depois veio o pai de sorriso rasgado com a certeza que nunca mais teria de ouvir a rádio Moscovo às escondidas.
Aconteceu tudo muito rápido, a noite chegou e a festa foi rija . Adormeceu por fim com a certeza que uma coisa chamada liberdade iria permitir-lhe crescer com dignidade.

mariazinha

8 comentários:

Belzebu disse...

Um sonho lindo por cumprir! Em 74 eu também andava na 4ªclasse e fui surpreendido pelo encerramento da escola. Aqui no Porto não se sentia a agitação das ruas e a informação ia chegando a conta-gotas. Quando regressei a casa ainda pouco se sabia, mas havia algo diferente naquela manhã. Era o cumprir de um sonho de um povo, era a dignidade a ser devolvida, era um cravo que floria nas mãos de cada um. Hoje sinto que algo está por cumprir, ficamos aquém do que era desejável.

Saudações infernais!

migvic disse...

Eu estava na escola primária e lembro-me de aterrar lá um helicoptero, por o colégio ser da filha do Marcelo Caetano.

Dias disse...

Olha Mariazinha, eu estava em França, exilado por não querer ir para a guerra. Foi o dia mais feliz da minha vida.

Viva a LIBERDADE, viva o 25 DE ABRIL, viva a PAZ

ROADRUNNER disse...

Pois é. Pena é em certos aspectos da nossa sociedade estarmos a recuar no tempo e a fazermos uma caminhada inversa àquela que o 25 de Abril havia possibilitado e previsto.
Muitos dos objectivos e metas da Revolução falharam clamorosamente e ainda continuamos a alinhar no pelotão de trás em questões primordiais para um regime que se pretende plenamente democrático.
Saudações!

Anónimo disse...

Caros amigos,

"José Afonso", figura ímpar da cultura portuguesa, que trilhou, desde sempre, um percurso de coerência na recusa permanente do caminho mais fácil, da acomodação, no combate ao fascismo salazarista e pela liberdade e democracia, é tema de um selo que está em 3º lugar. Precisamos do voto de todos para que se faça um selo em sua memória e em louvor à Liberdade.
Num período de exaltação de valores salazaristas, devemos contrapor com os nossos defensores de Abril!

“Venham mais cinco!!
Traz um amigo também!”


VOTA
[aqui]

Abril, SEMPRE!!

Davide da Costa

Kaos disse...

Uma bela história e que mostra como o 25 de Abril foi para muitos o dia mais maravilhoso das suas vidas e uma memória que nunca se apagará.
Eu vinha aqui, depois de vários dias em que por falta de tempo andei arredado destas visitas de que tanto gosto, para te desejar um bom 25 de Abril, mas vejo que para ti o será sempre.
bjs

aflores disse...

Eu tinha 17 anos...trabalhava das 9 ás 18 e estudava à noite.

Muita coisa mudou, outro tanto precisava mudar.

Ogre disse...

Obrigado pela memória.
Nesse dia, ao almoço, na televisão leram um comunicado do MFA que terminou com vários "viva" e o último foi "Viva Portugal". O meu pai gritou Viva e depois olhou para mim, meio envergonhado e deu-me um abraço desajeitado.
Ainda hoje sinto o calor desse abraço.

Agora, o que me lixa (para ser bem educado) é que, pela 1ª vez depois desse dia, sinto que temos um governo, de novo, fascista.

Deixo-lhe um beijo, desajeitado.